SE SER MULHER NÃO É FÁCIL, SER MULHER AFRICANA É O FIM DA PICADA…

A activista guineense Arthimiza Mendonça lamentou que as mulheres africanas continuem a lutar por direitos básicos conquistados há décadas no Ocidente, defendendo um feminismo ligado à realidade do continente africano.

Isto é. “Enquanto elas (mulheres ocidentais) lutavam por salários e oportunidades, nós cuidávamos dos filhos delas”, disse, acrescentando que muitas mulheres africanas “nem tinham direito à escola, nem a uma boa alimentação, nem a uma moradia digna”.

Fundadora da revista “Pérola Afrikana”, Arthimiza Mendonça disse, numa entrevista telefónica à Lusa, que o projecto nasceu da necessidade de criar “um espaço” onde mulheres africanas e afrodescendentes possam “falar de si na primeira pessoa” e não através do olhar de terceiros.

Segundo a jornalista, a revista procura destacar a diversidade cultural, social e económica destas mulheres, dando visibilidade aos seus percursos e contributos para as comunidades.

Arthimiza Mendonça considera que a realidade enfrentada por muitas mulheres africanas continua distante da experiência das mulheres ocidentais, lembrando que ambas “não partiram do mesmo princípio” ao longo da história.

A primeira edição da revista foi lançada em Março de 2025, na véspera do Dia Internacional da Mulher, e mais tarde apresentada também em Portugal, decisão que Arthimiza justifica com a importância da diáspora africana, visto que estão longe dos países de origem e precisam de alguma forma de estar ligados às suas raízes.

“Fomos para Portugal porque sabemos que temos uma diáspora enorme”, explicou, acrescentando que muitas mulheres precisavam “ver a revista física, tocar, folhear” e sentir que “o mundo está a escutar” as suas histórias.

A activista sublinhou que defende os direitos de todas as mulheres, mas considera que o feminismo deve respeitar a história, a cultura e as especificidades sociais africanas.

“Respeito a luta de todas as mulheres, mas permitam-nos primeiro chegar onde vocês estão”, declarou.

A revista procura também preservar a memória cultural africana através da escrita, numa sociedade onde muitas histórias “continuam a ser transmitidas pela oralidade”. Histórias de guerra, tradições e costumes são contadas pelos “mais velhos”, antigos combatentes.

A activista alertou ainda para o crescimento de práticas de clareamento da pele em vários países africanos e na diáspora, incluindo crianças, motivado pela não-aceitação da sua cor e cultura.

“No Congo Brazzaville e na Nigéria há mulheres que aplicam cimento na pele para clarear mais rapidamente” e fazem o mesmo aos seus filhos, para que não se notem as diferenças de tom de pele, afirmou, descrevendo o processo como “cruel e doloroso”.

Para combater situações semelhantes, Arthimiza Mendonça anunciou o lançamento, em Junho, da revista infantil Winne, apresentada como a primeira publicação do género na Guiné-Bissau.

“Winne significa: precisam me ver”, explicou, para defender uma maior proteção e valorização das crianças africanas.

Arthimiza Mendonça estará em Portugal na primeira semana de Junho para participar nas comemorações dos 13 anos da Rede Sem Fronteiras, organização cultural internacional, sem fins lucrativos, da qual é representante na Guiné-Bissau.

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